Desenvolvimento do Cérebro Humano: do Útero à Infância
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O cérebro pode ser considerado o órgão mais importante do ser humano. Trata-se de um órgão extremamente complexo que desempenha um papel preponderante em todas as funções do corpo, de fato, a ausência de atividade cerebral define a morte clínica.

O desenvolvimento infantil é um processo dinâmico que consiste na construção, aquisição e interação de novas habilidades. E estas habilidades são advindas da remodelação cerebral, conhecida como plasticidade cerebral. Já a maturação do cérebro, considerável antes do nascimento – com a produção de mais de 100 bilhões de células nervosas – e ao longo dos dois primeiros anos de vida com o crescimento contínuo do volume do cérebro, constitui um período de grande vulnerabilidade.

Ao longo do desenvolvimento, as áreas do cérebro não maturam ao mesmo tempo. Por exemplo, a percepção auditiva começa antes do nascimento. O cérebro de um recém-nascido já é capaz de reconhecer vozes e melodias familiares ouvidas no período fetal. Depois de o bebê nascer o seu cérebro em desenvolvimento é moldado pelas interações entre as influências dos genes e da experiência. Historicamente, acreditava-se que crianças menores de 3 ou 4 anos de idade eram incapazes de criar representações estáveis de eventos e, portanto, eram incapazes de lembrar-se deles. . Entretanto, pesquisas com bebês e crianças pequenas verificaram que eles podem e conseguem criar lembranças de eventos. Há muitas formas de dividir o constructo da memória. Por exemplo, diferenciamos memória de trabalho, que permite reter representações por alguns segundos, e memória de longo prazo, que permite recordar eventos ao longo da vida.

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A memória de longo prazo pode ainda ser dividida em dois tipos: não declarativa (ou implícita) e declarativa (ou explícita). Memórias não declarativas são inacessíveis à consciência, e incluem habilidades de aprendizagem (por exemplo, andar de bicicleta) e de procedimentos (ou seja, processamento facilitado de um estímulo como função de experiência anterior a ele relacionada). A memória não declarativa está presente praticamente desde o nascimento.

As células que compõem grande parte do hipocampo – uma estrutura cerebral no lobo temporal medial, necessária para a formação de memórias declarativas – são formadas no final do período pré-natal. No entanto, as células situadas no giro dentado do hipocampo – uma área que associa a estrutura com regiões corticais do cérebro – aparentemente só estarão maduras por volta de 12 a 15 meses de idade. A densidade das sinapses no córtex-frontal aumenta drasticamente aos 8 meses de idade, atingindo seu máximo entre 1 e 2 anos.

A memória é avaliada comparando o número de ações – ações individuais e ações na ordem temporal correta – com o número de ações realizadas durante a apresentação básica – antes dos modelos. Pesquisadores utilizaram esse paradigma com bebês de 6 meses de idade e constataram que, com o aumento da idade, os bebês conseguem manter a lembrança por períodos cada vez mais longos. Por exemplo, aos 6 meses de idade o bebê recorda-se de ações por 24 horas, mas não por 48 horas; aos 9 meses de idade, por um mês, mas não por três meses; e aos 20 meses de idade, por períodos que chegam a um ano.

Uma parte significativa de nosso córtex cerebral é dedicada principalmente ao processamento visual. A visão fornece informações sobre nosso ambiente sem necessidade de proximidade, como no caso de sabor, toque ou odor. A visão tem importância primordial em todos os aspectos de nossa vida cotidiana. Em termos gerais, a sensibilidade ao contraste e a acuidade, medidas em termos psicofísicos, amadurecem por volta dos 5 ou 6 anos de idade em humanos. Nos primeiros meses de vida, o sistema visual ainda está em desenvolvimento. Do nascimento até a maturidade, o tamanho do olho aumenta em até três vezes, e grande parte desse crescimento é concluído aos 3 anos de idade

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Bebê prematuro (conforme o grau de prematuridade): é possível que as pálpebras não estejam totalmente separadas; que a íris não se contraia, nem se dilate; que o sistema de drenagem do humor aquoso não funcione adequadamente. Implicações funcionais: falta de capacidade para controlar a luminosidade que entra no olho; o sistema visual não está pronto para funcionar.

Ao nascer: as pupilas ainda não são capazes de dilatar totalmente; a curvatura do cristalino é quase esférica; a retina (principalmente a mácula) não está totalmente desenvolvida; o bebê é moderadamente hipermetrope e apresenta algum grau de astigmatismo.

Aos 3 meses de idade: tem início o controle cortical dos movimentos oculares e da cabeça, tornando possível a integração para deslocamento de atenção; os sistemas neurais dos circuitos ventral e dorsal começam a contribuir juntos para o comportamento visual do bebê; os movimentos oculares são coordenados na maior parte do tempo; o olhar é atraído não só para objetos em preto e branco, mas também coloridos (amarelos e vermelhos); o bebê começa a associar estímulos visuais com um evento

Entre 5 e 6 meses de idade: o bebê é capaz de olhar (examinar visualmente) para um objeto em suas mãos; embora algumas vezes descoordenado, o movimento ocular é mais suave; o bebê tem consciência visual do ambiente (“explora” visualmente), e consegue deslocar o olhar de perto para longe com facilidade;

No entanto, o desenvolvimento mais completo dos mecanismos cerebrais que permitem a análise de cenas visuais complexas, objetos e rostos específicos, ocorrerá mais tarde

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Aos 3 anos de idade: o tecido da retina está maduro; a criança consegue completar um quadro de formas corretamente (com base em sua memória visual)

Entre 5 e 7 anos de idade: sabe-se que o desenvolvimento das funções básicas das áreas sensoriais precoces do córtex estão concluídas; no entanto, o desenvolvimento funcional de substratos cerebrais para a percepção de cenas visuais complexas leva mais tempo

Referências
https://www.primeirainfanciaempauta.org.br/a-crianca-e-seu-desenvolvimento-o-desenvolvimento-cerebral.html
https://geracaoamanha.org.br/principios-da-primeira-infancia-segundo-a-neurociencia/#:~:text=O%20desenvolvimento%20cerebral%20%C3%A9%20muito,complexas%20sendo%20constru%C3%ADdas%20sobre%20elas
J. FRASER MUSTARD, PHD THE FOUNDERS’ NETWORK, FOUNDING CHAIRMAN. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância. Desenvolvimento cerebral inicial e desenvolvimento humano. Council for Early Child Development, Toronto, Canadá: CEECD, 2010. Disponível em: https://www.enciclopedia-crianca.com/pdf/expert/importancia-do-desenvolvimento-infantil/segundo-especialistas/desenvolvimento-cerebral-inicial-e.
AMANHÃ, Instituto Geração. Os princípios da primeira infância segundo a neurociência. ln: Sandra Sobral. IGA. Brasil, 23 jan. 2020. Disponível em: https://geracaoamanha.org.br/principios-da-primeira-infancia-segundo-a-neurociencia/#:~:text=O%20desenvolvimento%20cerebral%20%C3%A9%20muito,complexas%20sendo%20constru%C3%ADdas%20sobre%20elas.
Giedd, J., Blumenthal, J., Jeffries, N. et ai. Desenvolvimento cerebral durante a infância e adolescência: um estudo longitudinal de ressonância magnética. Nat Neurosci 2, 861-863 (1999). https://doi.org/10.1038/13158
RAFAEL VIEIRA MD . KENHUB. Hipocampo. [S.l.]. -, 2022. Disponível em: https://www.kenhub.com/pt/library/anatomia/hipocampo-anatomia-e-funcoes

Entre 6 e 9 meses de idade: a acuidade melhora rapidamente (próximo do nível de maturidade); o bebê “explora” visualmente (examina visualmente objetos em suas mãos e observa atividades ao seu redor); consegue trocar o objeto de mão, e pode interessar-se por padrões geométricos. 

Entre 9 meses e 1 ano de idade: a criança consegue focar visualmente em um pequeno objeto

Aos 2 anos de idade: a mielinização do nervo óptico está completa; possui orientação vertical (para cima); todas as habilidades ópticas são suaves e bem-coordenadas; a criança consegue imitar movimentos, combinar objetos de acordo com propriedades simples (cor, formato) e apontar figuras específicas em um livro.

Entre 2 e 5 anos de idade: as funções cerebrais da criança são caracterizadas por capacidades de processamento sensorial básico próximas às de um adulto.